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segunda-feira, 11 de abril de 2022

JORGE VAI AO TEATRO: AN ENGLISHMAN ABROAD de Alan Bennett

A companhia The Lisbon Players existe em Lisboa há já várias décadas, mas infelizmente perderam o seu espaço de eleição, o Estrela Hall. No seu lugar irá, supostamente, nascer mais um condomínio de luxo onde não haverá espaço para acolher uma pequena sala de teatro. Perante esta situação, mais a porra do Covid, esta companhia tem estado um pouco parada. Assim, é com alegria que anuncio que estão de volta, desta vez no espaço do Teatro do Bairro, com uma peça de Alan Bennett e, acreditem, eles merecem a vossa atenção.

Este original foi escrito para a BBC e baseia-se no encontro real entre a atriz Coral Browne e Guy Burgess, que trabalhava para a União Soviética como espião. O encontro deu-se em Moscovo em 1958, para onde Guy fugiu e aonde Coral foi em digressão. Ele tem um pedido peculiar a fazer à actriz; que esta lhe tire as medidas e mande fazer um fato para ele em Londres.

Assim, à primeira vista, parece que não há muito assunto e, ao princípio, fiquei um pouco baralhado quanto ao assunto da peça. Mas depressa percebi que, com humor, Bennett dá-nos um retrato intimista de um homem solitário, de certa forma dispensável, um pouco patético, que sonha com a sua pátria, mas que sabe que não pode abandonar a sociedade cinzenta de Moscovo, onde ainda assim se consegue divertir com um moço ou outro. Quanto a Coral, é uma mulher perspicaz, sem papas na língua, que parece viver a sua vida como quer.

A direção sóbria de Elizabeth Bochmann, flui durante uma curta hora, tirando o maior proveito do excelente par de actores que tem nas suas mãos. Estes são Celia Williams e Mick Greer, quem dão vida de forma animada a dois personagens que enchem o palco com graça e emoção. O jovem Marco Fernandes também dá o ar da sua graça num pequeno apontamento coreográfico.

Para quem não está habituado às produções do Lisbon Players, chamo a atenção que estas são sempre em inglês, sem legendas. Posto isto, aconselho uma ida até ao Teatro do Bairro e saúdo o regresso desta companhia teatral!

Elenco: Celia Williams, Mick Greer, Marco Fernandes, Vuk Simic

Equipa Criativa: Texto de Alan Bennett • Cenografia de Miguel Sá Fernandes • Assistende de Encenação: Cassandra Weightman • Luz de Adrian Pearce • Figurinos de Elizabeth Day • Produção de Jonathan Weightman e Suresh Nampuri • Encenação de Elizabeth Bochmann

Classificação: 6 (de 1 a 10) / Designer Gráfico: Luís Covas


quarta-feira, 30 de março de 2022

JORGE VAI AO TEATRO: O AMOR É TÃO SIMPLES de Noël Coward

O termo “screwball comedy” (qualquer coisa como “comédia maluca” em português) nasceu na Hollywood dos anos 30 e era um subgénero da comédia romântica sofisticada, onde, geralmente, havia uma guerra de sexos, as mulheres dominavam a acção, os homens viam a sua masculinidade ameaçada, e gerava-se sempre uma grande confusão entre as personagens. Pessoalmente, adoro o género! Bons exemplos do mesmo são o IT HAPPENED ONE NIGHT, MY MAN GODFREY, THE LADY EVE e BRINGING UP BABY. 

Tudo isto para vos falar de O AMOR É TÃO SIMPLES (PRESENT LAUGHTER no original), uma comédia escrita por Noël Coward em 1939, que encaixa perfeitamente nesse género, e que estreou para nosso puro deleite no Teatro da Trindade em Lisboa.

Como o próprio Diogo Infante diz na “folha de sala”, “em equipa vencedora não se mexe” e depois da fantástica produção de CHICAGO, juntaram-se todos de novo para nos dar mais um grande espectáculo. São praticamente duas horas de pura diversão, muita confusão e muita gargalhada, com a tradução de Ana Sampaio a importar a história para Lisboa e a adaptá-la de forma brilhante para a nossa realidade (até Florbela Espanca tem direito a um momento teatral).

Quanto a Diogo Infante, confesso que não lhe conhecia a veia cómica e isso foi uma agradável surpresa para mim. O seu personagem, Guilherme de Andrade, é um charmoso e arrogante actor de meia-idade que todos adoram, é maior que a vida e Infante é simplesmente fantástico no papel. Mas Infante também é excelente na direcção, com um cómico timing perfeito e um ritmo que flui sem quebras. Noutra coisa que ele também foi muito bom foi na escolha do elenco, que dirige com mão de mestre.

Como é costume nestas “comédias malucas”, as personagens femininas acabam por ter sempre um grande peso e esta peça não é excepção, dando a todas elas oportunidade de brilhar. Gabriela Barros é a jovem e ingénua aspirante a actriz, Rita Salema é a prática secretária de língua afiada, Ana Brito e Cunha a assertiva e confiante ex-mulher, Patrícia Tavares é a predadora e atrevida esposa de um amigo e Ana Cloe é a deliciosa governanta russa (mas também uma tia ricaça). Quanto a eles, Cristóvão Campos é um autor pseudo-intelectual que começa a sentir “coisas” por Guilherme, António Melo é o amigo traído, Miguel Raposo o amante destroçado e Flávio Gil o mordomo maroto (parabéns a Infante por estar a dar a mão a este jovem e talentoso actor, que era extraordinário no seu solo na peça MÁRIO) Todos estão excelentes nos seus papéis e foi com prazer que, no final, me levantei para os aplaudir de pé.

Já devem ter percebido que gostei muito da peça, que recomendo sem reservas. Numa altura em que o Mundo está triste e sem graça, sabe bem escapar à realidade por duas horas onde o amor não é assim tão simples, mas é pretexto para um elegante e divertido entretenimento. Infante e o seu elenco merecem a vossa visita e, acreditem, vão ter uma fantástica noite (ou matiné). Uma “comédia maluca” a não perder!

Elenco: Diogo Infante (Guilherme), Ana Brito e Cunha (Lis), Ana Cloe (a governanta e a tia de Henriqueta), António Melo (Hugo), Cristóvão Campos (Roberto), Flávio Gil (Quim), Gabriela Barros (Henriqueta), Miguel Raposo (Mateus), Patrícia Tavares (Joana), Rita Salema (Mónica)

Equipa Criativa: Texto de Noël Coward • Tradução de Ana Sampaio • Música de Nuno Rafael e Filipe Melo • Letra de Rui Melo • Cenografia de F. Ribeiro • Figurinos de José António Tenente • Desenho de luz de Paulo Sabino • Encenação de Diogo Infante

Classificação: 8 (de 1 a 10) / Fotos: Filipe Ferreira





quarta-feira, 23 de março de 2022

JORGE VAI AO TEATRO: A RATOEIRA de Agatha Christie

Das vezes que fui a Londres fiquei sempre curioso com esta famosa peça de Agatha Christie por duas razões. Sempre gostei de um bom “whodunnit” (quem é o culpado) e pelo facto de a peça estar em exibição há décadas (70 anos). Acabei por nunca a ver, porque acabo sempre por preferir ir ver um musical e achar que um dia verei a peça. Esse dia chegou a semana passada e foi aqui em Lisboa, Portugal.

A pedido do actor Ruy de Carvalho, que com 95 anos está ali para as “curvas”, não posso revelar a identidade de pessoa ou pessoas responsáveis pelo crime, no fundo somos cúmplices das personagens. Posso apenas adiantar que não é nem o mordomo nem a cozinheira.

O primeiro acto é muito divertido e a acção flui muito bem, com uma excelente introdução dos personagens/suspeitos e da trama por detrás do crime. No segundo acto a acção arrasta-se um pouco e a conclusão precisava de mais suspense. Tirando isso, gostei de passar a noite na companhia do talentoso elenco, onde tenho que destacar Henrique de Carvalho e Elsa Galvão que, com as suas personagens meio excêntricas, foram para mim as estrelas da noite. 

Fiquei curioso quanto a uma coisa. Será que no texto original da tia Agatha Christie, a sexualidade de algumas personagens era dúbia? Mas gosto que assim seja!

Soube-me bem ir ao teatro e ver uma plateia cheia e satisfeita. Esta Ratoeira merece uma visita e, se o queijo são os actores, não tenham receio de ser os ratos! 


Elenco: Filipe Crawford, Henrique de Carvalho, Ruy de Carvalho, Elsa Galvão, Sara Cecília, Daniel Cerca Santos, Sofia de Portugal, Luís Pacheco

Equipa Criativa: Textos de Agatha Christie • Cenografia e Guarda-roupa de Fred Klaus • Encenação de Paulo Sousa Costa

Classificação: 6 (de 1 a 10) 




sábado, 24 de outubro de 2020

REGRESSO A CHICAGO E À AVENIDA Q

Quem me conhece sabe que adoro teatro e cinema no geral, mas sou verdadeiramente apaixonado por musicais, sejam eles de teatro ou de cinema! Simplesmente amo o género desde miúdo. As sessões de cinema a preto e branco na televisão, onde descobri os filmes do Fred Astaire e da Ginger Rogers, ou o show semanal da minha adorada Julie Andrews, foram o início dessaq paixão crescente.

Tudo isto a propósito do regresso aos nossos palcos de dois excelentes musicais da Broadway, CHICAGO e AVENIDA Q. A primeira vez que vi ambos foi na Broadway; o AVENIDA Q foi uma agradável surpresa e o CHICAGO é simplesmente o meu musical preferido. A ideia de ver ambos em português assustou-me, mas não os podia perder e assim que chegaram aos nossos palcos corri a vê-los e não me arrependi, antes pelo contrário.

 

Estes dois musicais são ambos produzidos pela Força de Produção, originalmente ambos tinham direção musical de Artur Guimarães, que neste regresso optou por ficar no AVENIDA Q e cedeu o seu lugar em CHICAGO a António Andrade Santos. A original Mary Sunshine de CHICAGO, Ana Cloe, também optou por voltar a AVENIDA Q, onde já tinha dado vida a Marta Monstro, sendo substituída por Sara Campina. Por outro lado, Gabriela Barros cedeu o seu lugar de Maria (a noiva turca) em AVENIDA Q a Raquel Tillo Clayton e volta a reencarnar Roxie Hart no CHICAGO.

 

Como já devem ter percebido, fui ver outra vez estas peças. Foi a terceira vez para AVENIDA Q (mais uma na Broadway) e a quarta para CHICAGO (mais duas na Broadway, duas em Londres e uma tournée internacional que veio ao nosso Coliseu). Escusado será dizer que adorei cada segundo de ambas e que foi com enorme prazer que, acho que posso dizer isto, reencontrei os excelentes elencos e me deixei uma vez mais conquistar por eles.

 

AVENIDA Q continua a ser deliciosamente divertido e badalhoco, mesmo como eu gosto. Adoro as personagens coloridas, tanto as humanas como as animadas. Acho genial a forma como os actores se fundem tão bem com os bonecos que representam, tornando-se numa só entidade. Na verdade, os actores estão cada vez melhores! As canções ficam no ouvido e houve cuidado em atualizar ligeiramente algumas letras, bem como algum do texto. É sem dúvida um louco antídoto contra os tempos negros que vivemos e recomendo sem reservas esta incursão num universo adulto do mundo dos Marretas e da Rua Sésamo!

Podem ler a minha crítica original clicando neste link: AVENIDA Q

 

No Natal de 1976 (tinha 12 anos) os meus pais ofereceram-me o disco de vinil do CHICAGO com o seu elenco da Broadway e foi paixão à primeira audição! Desde esse dia, até hoje, esse musical tornou-se a minha partitura favorita e ainda me apaixonei mais por ele quando vi o revival da Broadway ao vivo. Acreditem, esta produção portuguesa está ao mesmo nível! A encenação tipo concerto desse revival deu lugar a uma mais teatral, mais perto do original e do filme, nos nossos palcos. 

O elenco está cada vez melhor, com Gabriela Barros a exceder-se a si mesma e Soraia Tavares a dar-nos uma interpretação mais madura (ela cresceu com a sua personagem); mas são todos tão bons que merecem os nossos aplausos, os gritos e a ovação em pé. Só tenho pena que Diogo Infante tenha optado por encurtar o número do “Me and My Baby”, bem como por ter cortado o “When Velma Takes the Stand” (adorava ver a Soraia no mesmo) e o “Class” que daria a oportunidade a Catarina Guerreiro de nos dar mais um canção, desta vez em dueto com Soraia, mas isto é só para quem conhece o original. Em nada isso diminui a excelência deste “fantabulástico” musical e desta feliz produção. Por favor, não a percam!

Podem ler a minha crítica original clicando neste link: CHICAGO

 

Como ainda nos é permitido sonhar, tenho esperança de um dia ver Gabriela Barros em SWEET CHARITY, Soraia Tavares em KISS OF THE SPIDER WOMAN, Ana Cloe em THOROUGHLY MODERN MILLIE, Miguel Raposo, em THE MUSIC MAN, Samuel Alves em COMPANY, Inês Aires Pereira em GENTLEMEN PREFER BLONDES e José Raposo e Sara Campina em THE KING AND I. Espero que a Força de Produção leia pelo menos este parágrafo.

 

Vamos lá pessoal! Ponham as vossas máscaras e saiam de casa. Vão ao teatro! Estes dois musicais esperam por vocês e vão proporcionar-vos momentos inesquecíveis!

 


AVENIDA Q

Elenco: Ana Cloe (Marta Monstro), Samuel Alves (Luís), Inês Aires Pereira (Paula Porca), Manuel Moreira (Félix), Raquel Tillo Clayton (Maria), Rodrigo Saraiva (Trekkie Monstro), Rui Maria Pêgo (Saúl), Diogo Valsassina (noivo de Maria),

Músicos: André Galvão, Artur Guimarães, Tom Neiva

Equipa Criativa: Argumento de Robert Lopez, Jeff Marx, Jeff Whitty • Tradução de Henrique Dias • Música e Letra de Robert Lopez, Jeff Marx, Jeff Whitty • Tradução das Canções de Henrique Dias e Rui Melo • Direcção Musical de Artur Guimarães • Constriução de Marionetas e Apoio à Manipulação de Comapnhia S.A. Marionetas – Teatro & Bonecos Sofia Olivença Vinagre, Natacha Costa Pereira, José Manuel Valbom Gil, Maria Arnaldo Olivença, Palmira Salvador, Maria Luísa Gil • Encenação de Rui Melo

Classificação: 9 (de 1 a 10) / Fotos: Desconhecido

 



CHICAGO

Elenco: Gabriela Barros (Roxie Hart) Soraia Tavares (Velma Kelly), Miguel Raposo (Billy Flynn), José Raposo (Amos Hart), Catarina Guerreiro (Mama Morton), Sara Campina (Mary Sunshine), Carlota Carreira, Catarina Alves, Filipa Peraltinha, Leonor Rolla,, Mariana da Silva, Rita Spider, David Bernardino, Gonçalo Cabral, João Baptista Lopes, JP Costa, Pedro Gomes, Ricardo Lima, Sofia Loureiro 

Músicos: André Jesus, Artur Mendes, Carlos Borges, Jorge Pereira, Vítor Faria

Equipa Criativa: Argumento de Fred Ebb e Bob Fosse • Tradução de Ana Sampaio • Música de John Kander • Letras de Fred Ebb • Tradução das Canções de Rui Melo • Direcção Musical de Artur Guimarães • Coreografia de Rita Spider • Encenação de Diogo Infante 

Classificação: 10 (de 1 a 10) / Fotos: Filipe Ferreira



INTIMIDADES de Woody Allen

Em 1979, estreava em Portugal o primeiro filme sério de Woody Allen, INTERIORS no original e INTIMIDADE em português. Quando esta peça de autoria de Joana Furtado e Jorge Gomes Ribeiro, a partir de Woody Allen, estreou, pensei que se tratava da adaptação teatral desse filme de Woody Allen... enganei-me! Não é.

É sim, uma divertida comédia, onde a Dra. Felícia descobre que o seu marido a anda a trair com a sua amiga Carol, cujo marido parece viver noutra dimensão. Mas será que Carol, diminutivo de Carolina, via mesmo viver com o marido da amiga ou este ainda tem um segredo para revelar?

 

O cenário é único, simples e eficaz. Neste os personagens cruzam-se, discutem, insultam-se com graça e com perfeito timing cómico. Sempre tive um fraquinho por confusões em palco e esta fez-me soltar boas gargalhadas. Não conheço os textos originais de Woody Allen, mas estão muito bem-adaptados para nossa realidade.

 

Como a Dra. Felicia, Sofia Nicholson é uma “tia” sarcástica que, apesar de um bocado bêbada, nunca perde a sua compostura. Rita Fernandes é a falsa púdica Carol, que está praticamente à beira de um colapso nervoso. Como o marido de Carol, André Nunes é um perfeito alienado, que nos dá um hilariante número de dança. João Cabral é o marido traidor, um quarentão/cinquentão patético, mas com uma grande conversa. Por fim, temos Rita Brutt, como uma teenager muito confusa com o desenrolar dos acontecimentos. Todos vão muito bem e facilmente nos conquistam a nós, o público.

 

A peça só está em exibição às Quartas e Quintas no Teatro Villaret, mas merece a vossa visita. Acreditem que são mais ou menos 90 minutos de diversão despretensiosa, em boa companhia e sempre com um sorriso nos lábios... e se no final sentirem a vossa disposição bem “lubrificada” isso é bom sinal!

 

Elenco: Sofia Nicholson, Rita Fernandes, André Nunes, João Cabral, Rita Brutt

Equipa Criativa: Textos Originais de Woody Allen • Dramaturgia de Direcção do Projecto de Joana Furtado e Jorge Gomes Ribeiro Guarda-roupa de Rita Fernandes • Encenação e Cenários de Jorge Gomes Ribeiro 

Classificação: 7 (de 1 a 10) / Fotos: Elsa Furtado